Digitalizando a Industria Brasileira de Seguros

Paul Meeusen e Paulo Botti*

SUMÁRIO**

O Brasil tem pilares econômicos fortes. Um mercado eficiente de seguros permite que esses pilares da economia assumam riscos e se desenvolvam. Entretanto, isso requer que os mercados estejam funcionando bem. Um percentual muito baixo da população brasileira compra seguros. O uso inteligente da digitalização pode ajudar a reduzir o “gap” existente na penetração e proteção do seguro. Isto significa um potencial aberto para que o seguro se torne um verdadeiro motor para o desenvolvimento econômico.

Esse desenvolvimento aumenta o apetite e a necessidade de proteção de risco. Assim, o seguro não é mais considerado um opcional artigo de luxo, mas uma oportunidade atrativa de crescimento para os mercados e para o setor. Da mesma forma, a indústria de resseguros também tem grande potencial. As práticas de gerenciamento de risco e a oferta de serviços do Brasil já se beneficiaram da abertura aos mercados internacionais de resseguros, aumentando a competitividade e a provendo oferta local em condições internacionais. 

O uso inteligente da informação e da tecnologia é fator chave no crescimento. Quanto melhor a economia, mais o re/seguro é adquirido. Entretanto, a entrada da digitalização no dia a dia dos segurados pode ter um impacto aos seguradores e resseguradores. É positivo quando a indústria de seguro utiliza a tecnologia para avaliar, contratar e precificar riscos de uma maneira muito mais eficiente e mais amigável ao consumidor. É negativo quando clientes, no re/seguro, usam “advanced risk data aggregation and analytics” para aumentar a auto retenção e fortalecer seu poder de compra, o que não é novidade. 

A grande mudança vem com a possibilidade dos operadores de rede controlarem a relação entre os clientes e os segurados. Informação não é mais uma barreira para sua entrada e a influência dos operadores de rede não será limitada pelo processo de contratação, mas pode se espalhar para o desenho do produto, as reclamações de sinistro e aos seus pagamentos. O democratizado poder de computação (o PC), combinado com os usuários da Internet, vive agora um terceiro avanço, por meio da digitalização, realizando de forma segura e legal, transações e transferências de valores (blockchain). O moderno segurado, “digital native” vai esperar ofertas de serviços digitais. Ao invés de competir com soluções digitais próprias, um esforço coletivo do mercado para estabelecer um ecossistema comum vai beneficiar a indústria inteira.

Isso é um avanço sistêmico, mas requer um mercado digital confiável. Um conjunto de padrões vai permitir uma maior eficiência na integração de informações e na automação para os diversos players, como o controle de tráfego para a aviação e SWIFT para o sistema bancário. Como resultado, o mercado inteiro vai se beneficiar do aumento da certeza nos contratos, da maior prevenção contra perdas e fraudes, das eficiências operacionais e de riscos mais baixos. A tecnologia de registros descentralizados “Distributed Ledger” tem a vantagem de aumentar a transparência sem comprometer a segurança ou a privacidade da informação. O “Contracts Certainty”, garantia dos termos corretos de um contrato, aumenta quando a contratação não depende mais de papel, emails ou troca de arquivos com modelos, preços e cotações. O mercado brasileiro de seguros sofre com alto índice de fraudes. Com essas mudanças, como por exemplo, uma prova digital do seguro ou a primeira notificação de perda no caso de veículos, vão exigir cooperação de toda a indústria, assim como das autoridades. A tecnologia pode simplificar e acelerar essa colaboração e a padronização do processo, enquanto traz benefícios tangíveis. Entretanto, só irá funcionar se todos os atores no processo, como o segurado, o regulador de sinistros e outros fornecedores de serviço, os corretores, as seguradoras e resseguradoras estiverem digitalmente identificados e conectados.

Por que o mercado de seguros brasileiro deve agir agora? Vale a pena observar outros mercados emergentes. Eles se beneficiam de uma forte governança e um ambiente regulatório que estimula e acelera padronizações e digitalização. O supervisor/regulador do mercado pode ser um dos participantes numa plataforma de tecnologia distribuída, aprimorando significativamente seus procedimentos. É chegada a hora do seguro se beneficiar da lei das grandes informações e ações coletivas. Um mercado de seguros digital funcionando bem pode tornar-se um ponto de venda único para atrair investimentos locais e do exterior, energizando a inovação e retendo os melhores talentos locais.

*Paul Meeusen é ex CEO e atual Consultor Estratégico da The Blockchain Insurance Industry Initiative (B3i), companhia formada por grandes seguradoras e resseguradoras mundiais para explorar o potencial do uso de “Tecnologias Distribuídas de Registro” na area de seguros.

Paulo Botti é um dos fundadores da Terra Brasis Resseguros, uma resseguradora local, seu primeiro CEO e atual Membro do Conselho de Administração.

** O artigo completo pode ser visto em português e inglês no endereço terrabrasis.com.br

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